Prezados alunos,
Na última aula antes do recesso (a sessão 05, em 19-12-12), começamos a ler um trecho do livro Ismael: um romance da condição humana a fim de discutir questões ligadas aos mitos culturais e econômicos da atualidade e sua relação com a temática ambiental. Como não foi possível concluir a atividade, conforme prometido estou postando o trecho inteiro e algumas questões para reflexão. A atividade não é obrigatória, mas poderá gerar discussão posterior em sala de aula. Quem quiser também pode postar comentários abaixo, ao final da postagem.
Boa leitura e bom restinho de recesso!!
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Ismael: Um
Romance da Condição Humana
– Daniel Quinn
Orelha do livro:
O que sabemos da humanidade e de seu
comportamento? A história oficial, vista por olhos humanos, é um desfilar de
nossas grandes conquistas e, ao mesmo tempo, contraditoriamente, a angústia de
reconhecer a ameaça de uma iminente extinção da espécie.
Todos compartilhamos dessa angústia e
procuramos meios de interferir para que esse futuro sombrio não se concretize.
Todos temos um desejo sincero de salvar o mundo! E gostaríamos de encontrar um professor disposto a nos acolher
como discípulos para nos ensinar a satisfazer esse desejo.
O narrador desta belíssima fábula teve essa
oportunidade. Respondendo a um anúncio de jornal, foi ao encontro do professor
que procurava alunos com o desejo sincero de salvar o mundo. Esse professor,
para espanto do narrador e dos leitores, é um gorila. Uma criatura de imensa
sabedoria que, por várias circunstâncias, aprendeu a se comunicar com os
humanos pelo olhar e que, no curso de sua vida, leu e discutiu as principais
obras da história da humanidade, analisou o comportamento de nossa espécie,
tirou suas conclusões sobre a condição humana e pôs-se a transmitir aos homens
a sua visão da humanidade.
Um cartaz pendurado na sala do professor, com
a pergunta: “Com o fim da humanidade, haverá
esperança para o gorila?”, estimulou
nosso narrador a se matricular no curso. Ismael nos dá uma versão ampla,
provocativa e inquietante da história da humanidade. Como chegamos a um tal
estado de angústia existencial? A ameaça de extinção da espécie humana é real.
A degradação ambiental e moral é testemunhada no nosso cotidiano. Haverá saída?
O que pode cada um de nós fazer?
Numa narrativa erudita, sem perder a
simplicidade, o mestre Ismael nos conduz ao reverso da pergunta acima: Com o fim do gorila, haverá esperança para a humanidade? Daniel Quinn escreveu este livro e tentou, sem sucesso,
publicá-lo. Talvez por ser demasiadamente incisivo. Um dia leu no jornal, como
o seu narrador, o anúncio, de um concurso chamado Turner Tomorrow Fellowship,
aberto a obras de ficção que apresentassem soluções para os problemas mundiais.
Ganhou o concurso e Ismael tornou-se um best
seller.
Esta é uma leitura necessária e urgente para
todos aqueles, jovens e adultos, que têm um desejo sincero de salvar o mundo.
Ubiratan D’Ambrosio
CAPÍTULO
UM
1
A primeira vez que li o anúncio,
engasguei, xinguei e atirei o jornal no chão. Como nem isso pareceu bastar,
apanhei-o de novo, marchei até a cozinha e joguei-o no lixo. Já que estava lá,
preparei uma pequena refeição matinal e deixei que o tempo me acalmasse. Comi e
pensei em assuntos totalmente diversos. Isso aí. Depois tirei o jornal do lixo
e o abri na seção de Classificados Pessoais, só para ver se o maldito anúncio
continuava lá, do jeito que me lembrava dele. Continuava.
PROFESSOR procura aluno.
Deve ter um desejo sincero de salvar o mundo. Candidatar-se pessoalmente.
Um desejo sincero de salvar
o mundo! Gostei. Muito bonito. Um desejo
sincero de salvar o mundo — sim, era esplêndido. Antes do meio-dia, duzentos
lunáticos, desmiolados, estúpidos, pirados, aloprados, perdidos e outros
malucos e boçais sem dúvida estariam em fila no endereço indicado, dispostos a
abrir mão de todos os seus bens terrenos pelo raro privilégio de sentar-se aos
pés de algum guru iluminado, portador da novidade de que tudo se resolverá se
virarmos para o lado e dermos um forte abraço em nosso vizinho.
Vocês devem estar se perguntando:
por que esse homem está tão indignado, tão amargo? É uma pergunta justa. Na
verdade, é a pergunta que eu fazia a mim mesmo.
A resposta remonta a uma época,
há algumas décadas, em que eu enfiara na cabeça que tudo que mais queria no
mundo era... encontrar um professor. Isso mesmo. Imaginava que queria um
professor, que precisava de um professor. Alguém que me mostrasse como fazer
algo que se podia chamar de salvar o mundo.
Idiota, não? Infantil, ingênuo,
simplório, imaturo... Ou simplesmente tolo. Sendo eu de uma normalidade tão
patente em outros aspectos, são necessárias algumas explicações.
Aconteceu assim.
Durante a revolta juvenil dos
anos 60 e 70, eu era velho o bastante para entender o que a garotada tinha em
mente — queriam virar o mundo de cabeça para baixo — e jovem o
bastante para acreditar que conseguiriam isso. É verdade. Todas as manhãs, ao
abrir os olhos, esperava ver que a nova era começava, que o céu estava mais
azul e a grama, mais verde. Esperava ouvir risos no ar e ver as pessoas
dançando nas ruas. E não só a garotada: todo mundo! Não vou me desculpar por
minha ingenuidade: basta ouvir as canções da época para saber que eu não era o
único.
Daí, um dia, quando estava no
meio da adolescência, acordei e compreendi que a nova era nunca começaria. A
revolta não fora vencida — simplesmente se reduzira a um modismo. Será que fui o
único no mundo que ficou desiludido? Perplexo? Parecia que sim. Todos pareciam
prontos a enterrar o caso com um sorriso cínico e dizer: “Bom, o que você
esperava? Nunca passou e nunca passará disso. Ninguém está disposto a salvar o
mundo porque ninguém dá a mínima para o mundo — aquilo era apenas conversa de um bando
de garotos malucos. Procurem um emprego, juntem algum dinheiro, trabalhem até
os sessenta anos, e então mudem-se para a Flórida e morram”.
Eu não podia descartar a questão
assim e, em minha inocência, achei que devia existir alguém no mundo com uma sabedoria oculta que dissipasse minha desilusão e
perplexidade: um professor.
Mas é claro que não existia.
Eu não queria um guru ou um
mestre de kung-fu, ou um diretor espiritual. Não queria me tornar um mago, nem
aprender a arte do arqueiro zen, nem meditar, nem harmonizar meus chacras, nem
desvendar minhas antigas encarnações. Artes e disciplinas desse tipo são
fundamentalmente egoístas: todas têm a finalidade de beneficiar o discípulo,
não o mundo. Eu buscava algo totalmente diferente, que não estava nas Páginas
Amarelas nem em nenhum outro lugar. Na Jornada para o Leste, de
Hermann Hesse, nunca se descobre qual era a formidável sabedoria de Leo. Hesse
não podia nos dizer o que ele próprio não sabia. Ele era como eu — apenas
desejava que houvesse alguém no mundo como Leo, alguém com um conhecimento
secreto e uma sabedoria superior. Na verdade, é claro que não existe nenhum
conhecimento secreto: ninguém conhece nada que não se encontre sobre uma
prateleira da biblioteca pública. Mas eu não sabia disso então.
Sendo assim, procurei. Por mais
idiota que pareça, procurei. Em comparação, buscar o Santo Graal teria sido
mais sensato. Não falarei disso, é muito embaraçoso. Procurei até que recobrei
a lucidez. Parei de dar uma de tolo, mas algo morreu dentro de ruim — algo de que
sempre gostara, que admirara. No seu lugar, formou-se uma cicatriz: um ponto
resistente, mas também doloroso.
E agora, anos após eu desistir da
busca, eis que um charlatão punha um anúncio no jornal procurando exatamente o
mesmo jovem sonhador que eu fora havia quinze anos.
Mas isso ainda não explica minha
ira, não é?
Que tal esta analogia: você
esteve apaixonado por alguém durante dez anos, por alguém que mal sabia da sua
existência. Fez de tudo, tentou de tudo para que esse alguém entendesse que
você era uma pessoa valiosa, estimável, digna de ser amada. Então, um dia você
abre o jornal e seu olhar resvala pela coluna de Classificados Pessoais com um
anúncio desse alguém... buscando, outro digno de ser amado e disposto a amar.
Sim, sei que não é exatamente
igual. O professor desconhecido não tinha por que me procurar antes de anunciar
que buscava um aluno. Por outro lado, se o professor fosse um charlatão, como
eu supunha, por que eu desejaria
que ele me procurasse?
Resolvi deixar pra lá, Estava
sendo irracional. Acontece com as melhores famílias.
2
Mas é claro que eu tinha de ir lá
Precisava me certificar de que era apenas outro engodo. Entendem, não é? Trinta
segundos bastariam, uma simples olhada, dez palavras que ele dissesse. Então eu
saberia. Poderia voltar para casa e esquecer assunto.
Ao chegar, fiquei surpreso por
ver que se tratava de um prédio comercial daqueles bem comuns, cheio de
assessores de imprensa ordinários, advogados, dentistas, agências de viagem, um
quiroprático e um ou dois detetives particulares. Esperava uma atmosfera um
pouco mais misteriosa — um prédio de tijolos com paredes revestidas de madeira,
tetos altos e janelas vedadas, talvez. Procurei pela sala 105 e a encontrei aos
fundos, onde a janela devia dar para o beco. A porta não informava nada.
Empurrei-a e me vi numa sala grande e vazia. O espaço incomum fora criado
derrubando-se as paredes interiores; ainda se viam as marcas no chão de madeira
nua.
Tal foi minha primeira impressão:
a de vazio. A segunda foi olfativa. O ambiente cheirava a circo — ou melhor,
aos animais de circo — de modo inconfundível, mas não desagradável. Olhei em volta. A sala não estava totalmente
vazia. Junto à parede esquerda havia uma pequena estante com trinta ou quarenta
volumes, principalmente de história, pré-história e antropologia. Uma solitária
cadeira estofada jazia no meio, virada para uma desolada parede branca à
direita, parecendo esquecida lá pela firma de mudanças. Sem dúvida era
reservada para o mestre, e os discípulos ficariam ajoelhados ou agachados sobre
esteiras, formando um semicírculo a seus pés.
Mas onde estavam esses
discípulos, que eu previra encontrar as centenas? Teriam vindo e depois sido
conduzidos a algum lugar, tal como as crianças de Hamelin? A névoa uniforme de
poeira que cobria o chão excluía essa fantasia.
Havia algo de incomum na sala,
mas tive de olhar em volta mais uma vez para descobrir o que era. Na parede
oposta à porta, duas altas janelas de batente permitiam a entrada de uma tênue
luz vinda do beco. A parede da esquerda, geminada ao escritório vizinho, nada
apresentava. A parede da direita era cortada por uma grande janela de vidro
laminado, mas que seguramente não comunicava com o mundo exterior, pois por ali
não passava luz nenhuma. Dava para uma outra sala, menos iluminada do que o
aposento onde me encontrava. Tentei imaginar que objeto de devoção estaria
exposto ali, a salvo do toque de mãos curiosas. Seria algum yeti ou
pé-grande embalsamado, feito de pele de gato ou papel maché? Seria o corpo do tripulante
de um óvni, abatido por um guarda nacional antes de transmitir sua mensagem
estelar: “Somos todos irmãos. Sejam amáveis?”.
Como a escuridão lhe servia de
Fundo, o vidro dessa janela era negro —
opaco, reflexivo. Não tentei ver
além dele ao me aproximar: era eu o objeto de minha observação. Chegando perto
continuei a olhar o reflexo dos meus olhos por um momento. Depois, focalizando
além do vidro, vi-me diante de outro par de olhos.
Recuei, sobressaltado. Então,
compreendendo o que via, recuei outro passo, dessa vez com um pouco de medo.
A criatura do outro lado do vidro
era um gorila dos grandes. Dos grandes não
diz nada, é claro. Ele era aterrorizantemente enorme, um rochedo, um bloco de
Stonehenge. Só seu volume já era alarmante, apesar de não usá-lo de modo
ameaçador. Ao contrário: estava placidamente recostado, mordiscando de leve um
ramo delgado que segurava na mão esquerda como um cetro.
Eu não sabia o que dizer. Devem
avaliar como esse fato me perturbou. Senti que devia falar, pedir desculpas,
explicar minha presença, justificar a invasão, pedir o perdão da criatura.
Senti que era uma afronta mirar seus olhos, mas estava paralisado, inerte. Não
conseguia olhar para mais nada no mundo a não ser seu rosto. Era mais medonho
do que todos os do reino animal por se assemelhar tanto ao nosso; porém, à sua
maneira, era também mais nobre do que todos os ideais gregos de perfeição.
Nenhum obstáculo de fato nos
separava. O painel de vidro se romperia como papel se ele o tocasse. Mas não
parecia ter a menor intenção de fazê-lo. Continuou sentado, mirando meus olhos,
mordiscando seu ramo e esperando. Não, não estava esperando. Estava
simplesmente ali, estivera antes de minha chegada e estaria depois de
minha partida. Eu tinha o pressentimento de que importava para ele tanto quanto
uma nuvem passageira para um pastor que repousasse na encosta de uma colina.
O medo começou a diminuir,
devolvendo-me a consciência de minha situação. Disse a mim mesmo que o
professor obviamente não estava por ali, que não havia o que fazer, que o
melhor era ir embora. Mas não queria partir com a sensação de que não realizara
nada. Olhei em volta, pensando em deixar um bilhete, se encontrasse algo onde
(e com que) escrever, mas não achei nada. Essa busca, movida pela idéia da
comunicação escrita, trouxe à minha atenção algo que passara despercebido na
sala atrás do vidro; era um cartaz ou pôster pendurado atrás do gorila, que
dizia:
COM O FIM DA HUMANIDADE
HÁVERÁ ESPERANÇA
PARA O GORILA?
O cartaz me fez parar — ou melhor,
o texto me fez parar. As palavras são minha profissão; apoderei-me daquelas e
exigi que se explicassem, que deixassem de ser ambíguas. Implicariam que a
esperança para os gorilas estava na extinção da raça humana ou em sua
sobrevivência? Ambos os sentidos eram possíveis.
É claro, era um koan escrito
para ser inexplicável. Desagradou-me por esse motivo, e também por outro:
parecia que aquela magnífica criatura estava sendo mantida em cativeiro com o
único intuito de servir como ilustração para
aquele koan.
Você realmente precisa fazer
algo a respeito, disse, zangado, comigo. Depois acrescentei: Seria melhor que sentasse e ficasse tranqüilo.
Ouvi o eco dessa estranha
advertência como o fragmento de uma música que não consegui identificar. Olhei
para a cadeira e pensei: Seria melhor me
sentar e ficar tranqüilo? Se fosse assim, por quê? A resposta não tardou: Porque, se ficar
tranqüilo, será mais capaz de ouvir.
Sim, pensei, isso é inegável.
Por nenhum motivo consciente,
ergui os olhos e os dirigi para meu bestial companheiro da sala ao lado. Como
todos sabem, os olhos falam. Um
casal de estranhos pode, sem esforço, revelar seu mútuo interesse e atração por
meio de um simples olhar Os olhos dele falaram, e eu entendi. Minhas pernas
viraram geléia e mal consegui chegar cadeira antes de desmoronar.
— Mas como? — perguntei, não
ousando emitir as palavras em voz alta.
— Que diferença faz? — ele
respondeu, também em silêncio. — É assim, e
nada mais precisa ser dito.
— Mas você... — explodi. — Você é...
Percebi que, tendo chegado à
palavra, e sem outra para pôr no lugar, não conseguia pronunciá-la. Após um
momento ele assentiu com um gesto de cabeça, como que reconhecendo minha
dificuldade,
— Sou o professor.
Por algum tempo, ficamos a nos
olhar, e eu sentia a cabeça vazia como um celeiro abandonado.
Em seguida ele disse:
— Precisa de tempo para se recompor?
— Sim! — exclamei,
em voz alta pela primeira vez.
Virou a enorme cabeça de lado e
me espiou curiosamente.
— Ajudaria se ouvisse minha história?
— Certamente
que sim — respondi. — Mas antes, por gentileza, pode me dizer seu nome?
Encarou-me por algum tempo sem responder e (até onde eu percebia
na época) sem expressão. Então prosseguiu, como se eu não tivesse dito nada.
— Nasci em
algum lugar nas florestas equatoriais da África Ocidental —disse ele. — Nunca
tentei descobrir exatamente onde e não vejo motivo para tentar agora. Por acaso
conhece os métodos de Frank e Osa Johnson?
Levantei os olhos, espantado.
— Frank e Osa Johnson? Nunca ouvi falar
— Foram famosos colecionadores de animais dos anos 30. O
método deles com os gorilas era assim: quando encontravam um bando, matavam as
fêmeas e pegavam todos os filhotes à vista.
— Que horror — eu disse, sem
pensar.
A criatura encolheu os ombros.
— Não tenho nenhuma lembrança
real do evento, apesar de lembrar de períodos anteriores. De qualquer modo, os
Johnsons me venderam a um zoológico de alguma cidadezinha do Nordeste. Não sei
qual, pois ainda não tinha consciência de tais coisas. Lá cresci e vivi por
muitos anos. Fez uma pausa e ficou algum tempo mordiscando distraidamente o
ramo, como se reunisse seus ensinamentos.
3
Em tais lugares (prosseguiu ele
enfim), por serem simplesmente trancafiados, os animais quase sempre são mais
reflexivos do que seus primos nas florestas. Mesmo os mais obtusos não podem
deixar de intuir que há algo de muito errado com aquele modo de existir. Quando
digo que são mais reflexivos, não estou sugerindo que adquiram o poder de
raciocinar. Mas o tigre que vemos perambulando nervosamente pela cela na
verdade se dedica a algo que um humano reconheceria como um pensamento. E esse
pensamento é uma pergunta: Por quê? “Por quê,
por quê, por quê, por quê, por quê, por quê?”, o tigre se pergunta hora após
hora, dia após dia, ano após ano, ao repisar seu infindável trajeto atrás das
barras da cela. Ele não pode analisar a pergunta nem ampliá-la. Se fosse
possível perguntar à criatura: “Por que o quê?”, ele não
seria capaz de responder. No entanto, a pergunta queima como chama
inextinguível em sua mente, causando uma dor lacerante que só se aplaca quando
a criatura entra numa letargia final, que os técnicos reconhecem como uma
rejeição irreversível da vida. É claro, esse interrogar é algo que o tigre não
faz em seu habitat.
Não demorou para que eu também me
pusesse a perguntar por
quê. Sendo neurologicamente muito
mais avançado que o tigre, era capaz de examinar que a pergunta significava
para mim, ao menos de modo rudimentar. Lembrava-me de um tipo diferente de
vida, que era, para quem a vivera, interessante e agradável. Em comparação, a
vida que eu levava era torturantemente monótona, e nunca agradável. Portanto, a
pergunta era uma tentativa de desvendar por que a vida tinha de ser dividida
assim: metade interessante e agradável, metade monótona e desagradável. Não
tinha o conceito de cativeiro, não me ocorria que alguém estivesse me impedindo
de ter uma vida interessante e agradável. Como minha pergunta permanecesse sem
resposta, comecei a examinar as diferenças entre os dois estilos de vida. A
diferença mais fundamental era que na África eu pertencia a uma família — um tipo de família
que a gente de sua cultura não conhece há milhares de anos. Se os gorilas
fossem capazes de tal nível de expressão, diriam que a família é a mão e que
eles são os dedos. Estão totalmente conscientes de ser uma família, mas muito
pouco conscientes de ser indivíduos. No zoológico havia outros gorilas — mas não
havia família. Cinco dedos decepados não formam uma mão.
Examinei a questão de nossa
alimentação. As crianças humanas sonham com uma terra em que as montanhas são
feitas de sorvete, as árvores são feitas de pão-de-ló e as pedras são bombons.
Para um gorila, a África é essa terra. Para onde quer que se vire, há algo
maravilhoso para comer. Nunca pensa: “Puxa, é melhor eu procurar comida”. Há
comida por toda parte e a apanhamos quase sem nos dar conta, como o ar que
respiramos. Na verdade, não se pensa na alimentação como uma atividade
distinta. Em vez disso, é como uma música deliciosa que forma o pano de fundo
de todas as atividades que permeiam o dia. De fato, a alimentação, se tornou
alimentação para mim somente no Zoológico, quando duas vezes ao dia grandes
volumes de insossa forragem eram atirados em nossas jaulas.
Foi quebrando a cabeça com esses
pequenos problemas que minha vida interior começou — de modo quase
imperceptível.
Embora eu naturalmente não soubesse,
a Grande Depressão estava causando seus estragos em todos os aspectos da vida
americana. Zoológicos por toda parte eram obrigados a economizar, reduzindo, o
número de animais e assim cortando despesas de todos os tipos. Muitos animais
foram simplesmente abatidos, creio eu, pois não havia procura no setor privado
pelos que não fossem fáceis de cuidar nem coloridos ou sensacionais. As
exceções eram, é claro, os grandes felinos e os primatas.
Para encurtar a história, fui
vendido ao proprietário de um mini-zoológico ambulante com uma jaula vaga. Eu
era um adolescente grande e impressionante e, sem dúvida, representava um
seguro investimento a longo prazo.
Talvez você imagine que a vida
numa jaula não seja diferente da vida em outra jaula, mas não é assim. Considere
a questão do contato humano, por exemplo. No zoológico, todos os gorilas tinham
consciência de nossos visitantes humanos. Eram uma curiosidade para nós, algo
que valia a pena olhar, como pássaros ou esquilos ao redor de uma casa são de
interesse para uma família humana. Era claro que aquelas estranhas criaturas
estavam lá nos olhando, mas nunca nos ocorreu que viessem com um propósito
definido. No mini-zôo, todavia, rapidamente obtive um verdadeiro entendimento
desse fenômeno.
De fato, minha educação nesse
ponto começou logo que me puseram em exposição. Um pequeno grupo se aproximou do meu
vagão e após um momento, começaram a falar comigo.
Fiquei atônito. No zoológico. Os visitantes falavam uns com os outros — nunca
conosco. “Quem sabe essa gente se confundiu”, disse comigo. “Quem sabe
pensem que sou um deles”. Meu espanto e perplexidade cresceram quando um após
outro, cada grupo que visitava meu vagão se comportava da mesma forma. Eu
simplesmente não sabia o que achar daquilo.
Naquela noite, sem me dar conta
do que fazia, tentei pela primeira vez comandar meus pensamentos para resolver
um problema. Seria possível, pergunte-me, que minha mudança de local tivesse de
alguma forma mudado a mim? Não me sentia em absoluto mudado, e certamente nada
em meu aspecto parecia ter mudado. Talvez, pensei eu, a gente que me visitara
naquele dia pertencesse a uma espécie diferente da gente que ia ao zoológico.
Mas tal raciocínio não me convenceu: os dois grupos eram idênticos em todos os detalhes,
com uma exceção: um grupo falava entre si ao passo que o outro falava comigo.
Até o som da conversa era o mesmo. Tinha de ser outra coisa.
Na noite seguinte, voltei a
atacar o problema. Raciocinei da seguinte forma: se nada mudou em mim e nada
mudou neles, então outra coisa deve ter mudado. Eu sou o mesmo e eles são os mesmos,
logo alguma outra coisa não
é a mesma. Analisando a questão,
dessa maneira, eu só via uma resposta: no zoológico houvera muitos gorilas, mas
ali só havia um. Sentia o impacto disso, mas não conseguia imaginar por que os
visitantes se comportariam de um modo na presença de muitos gorilas e de outro
na presença de um só gorila.
No dia seguinte, tentei prestar
mais atenção ao que meus visitantes diziam. Logo notei que, embora toda fala
fosse diferente, havia um som que se repetia várias vezes, parecendo ter por
finalidade chamar minha atenção. Claro que não podia aventurar um palpite
quanto ao significado; não tinha nada que servisse como pedra filosofal.
O vagão à minha direita era
ocupado por uma chimpanzé com um bebê, e eu já notara que os visitantes falavam
com ela assim como falavam comigo. Depois notei que os visitantes empregavam um
som recorrente distinto para atrair sua atenção. No vagão dela, os visitantes
chamavam: “Zsa-Zsa! Zsa-Zsa!”. No meu vagão, eles chamavam: “Golias! Golias!
Golias!” .
Seguindo esses pequenos passos,
logo compreendi que os sons, de algum modo misterioso, se ligavam diretamente a
nós dois como indivíduos. Você,
que tem um nome desde que nasceu e que provavelmente pensa que até um cachorro
de estimação sabe que tem um nome (o que é falso), não pode imaginar a
revolução perceptiva que representa a aquisição de um nome. Não seria exagero
dizer que nasci de verdade naquele momento — nasci como pessoa.
Da compreensão de que eu tinha um
nome à compreensão de que tudo tinha um
nome não foi um grande salto. Você pode pensar que um animal enjaulado não tem
muita oportunidade para aprender a linguagem de seus visitantes, mas não é
assim. Mini-zôos ambulantes atraem famílias, e logo descobri que os pais
incessantemente instruem seus filhos nas artes da linguagem: “Olha, Johnny,
aquilo é um pato! Consegue dizer pato? P-a-a-t-o. Sabe como o pato fala?
O pato fala assim, quac-quac”.
Em poucos anos, eu era capaz de
acompanhar a maioria das conversas ao alcance de meus ouvidos, mas descobri que
a perplexidade caminha lado a lado com a compreensão. Sabia então que eu era um
gorila e que Zsa-Zsa era uma chimpanzé. Também sabia que todos os habitantes
dos vagões eram animais. Mas não conseguia perceber a constituição de um
animal; nossos visitantes humanos claramente distinguiam entre si mesmos e os
animais, mas eu era incapaz de imaginar por quê. Se eu entendia o que nos
tornava animais (e achava que entendia), não conseguia entender o que não os
tornava animais. A natureza de nosso cativeiro já não era um mistério, pois a
ouvira ser explicada para centenas de crianças. Todos os animais do míni-zôo ambulante
tinham originalmente vivido em algo chamado A Selva, que se estendia por todo o
mundo (fosse lá o que “mundo” significasse) . Havíamos sido levados da Selva e
reunidos num lugar porque, devido a algum estranho motivo, as pessoas nos
achavam interessantes. Mantinham-nos em jaulas porque éramos “ selvagens” e
“perigosos” — termos que me confundiam porque, evidentemente, se referiam a
qualidades que eu simbolizava. Quero dizer que, quando os pais queriam mostrar
a seus filhos uma criatura particularmente selvagem e perigosa, apontavam para
mim. É verdade que também apontavam para os grandes felinos, mas como eu nunca
vira um grande felino fora da jaula aquilo não me iluminava.
Em geral, a vida no mini-zôo
ambulante era um progresso em relação à vida no zoológico, por não ser tão
opressiva e maçante. Não me ocorreu ficar ressentido com os guardas. Embora
tivessem um âmbito de movimento maior, pareciam tão presos ao mini-zôo quanto
nós, e eu nem sequer suspeitava que vivessem uma existência totalmente diversa
do lado de fora. Teria sido tão plausível que a lei de Boyle tivesse me
ocorrido quanto a idéia de que fora injustamente privado de um direito nato,
tal como o direito de viver como bem entendesse.
Devem ter se passado três ou
quatro anos. Então, num dia chuvoso, quando o local estava deserto, recebi um
visitante peculiar: um homem solitário, que me pareceu um ancião alquebrado,
mas que, como soube mais tarde, tinha apenas quarenta e poucos anos. Até sua
aproximação foi notável. Ficou parado na entrada do mini-zôo, olhou
metodicamente um vagão de cada vez e depois dirigiu-se diretamente para o meu.
Parou em frente à corda que se estendia a um metro e meio da jaula, plantou a
ponta da bengala no chão diante de seus pés e mirou intensamente meus olhos.
Por nunca ter ficado abalado com a atenção humana, placidamente retribui seu
olhar. Fiquei sentado e ele ficou em pé por vários minutos, ambos sem nos
mexermos. Lembro-me de que senti uma admiração incomum por aquele homem, que
suportava tão estoicamente o chuvisco que escorria pelo seu rosto e ensopava
suas roupas.
Enfim ele se aprumou e acenou-me
com a cabeça como se tivesse chegado a uma conclusão cuidadosamente estudada.
— Você não é
Golias — disse ele.
Com isso, virou-se e voltou com
passos firmes por onde viera, sem olhar para nenhum lado.
4
Fiquei estupefato, como você pode
imaginar. Não sou Golias? O que queria dizer não ser Golias?
Não me ocorreu perguntar: “Bem,
se não sou Golias, então quem sou eu?” Um humano faria essa
pergunta, porque saberia que, não importava seu nome, seguramente era alguém. Eu não sabia. Ao contrário,
parecia-me que, se não era Golias, então não devia ser absolutamente ninguém.
Embora o estranho nunca houvesse
posto os olhos em mim até aquele dia, não duvidei nem por um momento que ele
falasse com autoridade inquestionável. Milhares de outros haviam me chamado
pelo nome de Golias — mesmo aqueles que, como os funcionários do zoológico, me
conheciam bem—, mas certamente aquela não era a questão, pois não esclarecia
nada. O estranho não dissera: “Seu nome não é
Golias”. Ele dissera: “Você
não é Golias”. Fazia um mundo de diferença.
Senti-me como se (embora não
pudesse expressá-lo dessa forma na época) minha necessidade de ter uma
identidade tivesse sido um engano.
Deixei-me arrastar para um estado
de letargia, nem consciente, nem inconsciente. Um funcionário trouxe a comida,
mas a ignorei. Caiu a noite, mas não dormi. A chuva parou e o sol nasceu sem
que eu notasse. Logo lá estavam os costumeiros grupos de visitantes, chamando:
“Golias! Golias! Golias!”, mas não prestei atenção.
Vários dias se passaram dessa
maneira. Então, uma noite, depois que o mini-zôo havia fechado suas portas,
bebi da minha vasilha e logo adormeci — um poderoso sedativo fora adicionado à
água. Ao amanhecer acordei numa jaula estranha. A princípio, por ser tão grande
e ter formato tão estranho, nem a reconheci como uma jaula. De fato, era
circular, vazada de todos os lados como depois soube, um terraço circular fora
adaptado para tal propósito. Exceto por uma casa branca perto dali, estava
isolada no meio de um bonito parque que, segundo eu imaginava, devia se
estender até os confins da Terra.
Não demorou para que eu
concebesse uma explicação para essa estranha transferência. As pessoas
visitavam o mini-zôo ambulante esperando, pelo menos em parte, ver um gorila
chamado Golias; eu não imaginava de onde vinha essa expectativa, mas certamente
deviam tê-la. E, quando o proprietário do zoológico soube que de fato eu não era
Golias, tornou-se impossível continuar exibindo-me como tal, e a única solução
fora me dispensar. Não sabia se lamentava o fato ou não. Meu novo lar era muito
mais agradável do que tudo que vira desde que deixara a África, mas sem o
estímulo diário da multidão logo se tornaria até mais excruciantemente tedioso
do que o zoológico, onde ao menos eu tivera a companhia de outros gorilas.
Ainda ponderava essas questões quando, no meio da manhã, ergui os olhos e vi
que não estava sozinho. Um homem se achava em pé logo depois das grades, uma silhueta
negra que se recortava contra a distante casa banhada pelo sol. Aproximei-me
com cautela e fiquei atônito ao reconhecê-lo.
Como que reencenando nosso
encontro anterior, fitamos os olhos um do outro por vários minutos: eu, sentado
no chão da jaula; ele, apoiado na bengala. Vi que, seco e com roupas passadas,
deixara de ser o velho por quem eu o tomara. Seu rosto era comprido, moreno e
de ossos salientes, seus olhos ardiam com estranha intensidade e sua boca
parecia fixa numa expressão de amargo bom humor. Por fim,
fez um gesto afirmativo com a cabeça exatamente como antes e disse:
— Sim, eu tinha razão. Você não é
Golias. Você é Ismael.
Novamente, como se tudo que
importasse tivesse sido finalmente acertado ele se virou e foi embora.
E, novamente, fiquei estupefato —
mas desta vez com uma sensação de profundo alívio, pois eu fora salvo do vazio.
Não só isso: o erro que me fizera viver como um impostor involuntário durante
tantos anos fora enfim corrigido. Tornara-me uma pessoa por inteiro — não de
novo, mas pela primeira vez.
Consumia-me de curiosidade pelo
meu salvador. Não pensei em associá-lo com minha transferência do zoológico
para aquele encantador belvedere, pois ainda era incapaz da mais primitiva das
falácias: post hoc, ergo propter hoc. Ele me parecia um ser sobrenatural. Para uma mente preparada
para a mitologia, ele era o princípio do que se chama de divino.
Fizera duas breves aparições em minha vida — e nas duas vezes, com um simples
enunciado, transformara-me. Tentei buscar o sentido subjacente a essas
aparições, mas encontrei apenas perguntas. Aquele homem fora ao zoológico em busca de Golias ou
de mim? Fora porque esperava
que eu fosse Golias ou porque suspeitava
que eu não fosse Golias? Como me encontrara tão prontamente em meu
novo paradeiro? Eu não tinha medida do alcance da informação humana; se era de
conhecimento comum que eu podia ser encontrado no zoológico (como parecera
ser), também seria de conhecimento público que agora eu podia ser encontrado
lá? Apesar de todas as perguntas irrespondíveis, permanecia o fato esmagador de
que aquela misteriosa criatura duas vezes me procurara para me tratar de um
modo sem precedentes — como uma pessoa. Eu tinha certeza de que, tendo
finalmente resolvido a questão da minha identidade, ele desapareceria da minha
vida para sempre: o que mais lhe restava fazer?
Sem dúvida você deve estar
pensando que todas essas ansiosas conjeturas não passavam de fantasias. No
entanto, a verdade (como depois soube) não era menos fantástica.
Meu benfeitor era um rico
comerciante judeu desta cidade, chamado Walter Sokolow. No dia em que me
descobriu no mini-zôo, estivera caminhando sob a chuva tomado de uma depressão
suicida que se abatera sobre ele quando soube, sem sombra de dúvida, que toda a
sua família fora dizimada no holocausto nazista. Perambulou até chegar a um
parque de diversões montado nos limites da cidade e entrou sem nada especial em mente. Devido à
chuva, quase todas as tendas e brinquedos estavam fechados, dando ao lugar um
ar de abandono que combinava com sua melancolia. Enfim chegou às jaulas dos animais,
onde uma série de gravuras apelativas anunciava as principais atrações. Uma
delas, mais apelativa do que as outras, retratava o gorila Golias brandindo o
corpo ferido de um nativo africano como se este fosse uma arma. Walter Sokolow,
talvez achando que um gorila chamado Golias fosse o símbolo adequado para o gigante
nazista que então se dedicava a esmagar a raça de Davi, decidiu que teria
prazer em contemplar tal monstro atrás das grades.
Entrou, aproximou-se de meu
vagão, mas ao fitar meus olhos, logo percebeu que eu não tinha nenhuma relação
com o monstro sedento de sangue que a gravura mostrava — e, na verdade, nem com
o filisteu que torturava a sua raça. Percebeu que não sentia prazer nenhum ao
me ver atrás das grades. Ao contrário, num gesto quixotesco de culpa e desafio,
decidiu resgatar-me de minha jaula e fazer de mim o pavoroso substituto da
família que deixara de resgatar da jaula que se tornara a Europa. O dono do
mini-zôo concordou com a venda; ficou até contente em deixar que o sr. Sokolow
contratasse o encarregado que cuidara de mim desde a minha chegada. Era um
homem realista: com a inevitável entrada da América na guerra, espetáculos itinerantes
como o seu passariam a temporada hibernando ou simplesmente desapareceriam.
O sr. Sokolow esperou um dia para
que eu me acostumasse ao novo ambiente e depois voltou para travar relações
comigo. Pediu ao encarregado que lhe mostrasse como tudo era feito, do preparo
da minha alimentação à limpeza da jaula. Perguntou se ele me achava perigoso. O
encarregado disse que eu era como uma peça de maquinaria pesada — perigoso não
por temperamento, mas apenas por meu tamanho e força.
Depois de uma hora, o sr. Sokolow
mandou-o embora e encaramo-nos em longo silêncio, como nas duas vezes
anteriores. Finalmente — com relutância, como que vencendo uma temível barreira
interior—, ele começou a falar comigo, não da maneira jocosa dos visitantes do
mini-zôo, mas como alguém que se dirige ao vento ou às ondas que arrebentam na
praia, proferindo o que deve ser dito, mas não ouvido por ninguém. Aos poucos,
enquanto desafogava suas dores e auto-recriminações, foi se esquecendo da
necessidade de cautela. Passada uma hora, estava apoiado na jaula, segurando
uma grade. Olhava para o chão, perdido em pensamentos, e aproveitei a
oportunidade para expressar minha simpatia, inclinando-me e acariciando
gentilmente as costas de sua mão. Ele saltou para trás, tomado de susto e
horror; porém, ao indagar meus olhos, tranqüilizou-se de que meu gesto fora tão
inocente quanto parecera.
Alertado por essa experiência,
começou a suspeitar de que eu possuía inteligência real, e alguns testes
simples bastaram para convencê-lo. Tendo provado que eu entendia suas palavras,
ele se apressou a concluir (como outros que mais tarde trabalharam com
primatas) que eu deveria ser capaz de produzir algumas. Resumindo, decidiu
ensinar-me a falar. Deixarei de lado os meses dolorosos e humilhantes que se
seguiram. Nenhum de nós entendia que a dificuldade era invencível, pois eu não
tinha o aparelho fônico básico. Sem essa compreensão, prosseguimos o trabalho
imaginando que um belo dia a aptidão se manifestaria em mim como num passe de
mágica. Mas enfim chegou o momento em que eu não podia mais continuar e, na
angústia de não ser capaz de lhe dizer isso, pensei com todo o poder mental que possuía. Ficou assombrado — como eu,
quando percebi que ele ouvira meu grito mental.
Não descreverei todos os passos
de nosso progresso depois que atingimos comunicação plena, já que não é difícil
imaginá-los. Ao longo da década seguinte, ele me ensinou tudo o que sabia sobre
o mundo, o universo e a história humana. Quando minhas perguntas ultrapassaram
seu conhecimento passamos a estudar juntos. E, quando meus estudos me levaram
além dos seus interesses, ele teve prazer em se tornar meu assistente de
pesquisa, buscando livros e informações em lugares que, é claro, não me eram
acessíveis.
Cuidar de minha educação
proporcionou um novo e absorvente interesse ao meu benfeitor, que aos poucos
deixou de se atormentar pelo remorso e recuperou-se de sua depressão. No inicio
dos anos 60 eu era um hóspede que já não necessitava de muita atenção de seu
anfitrião. O sr. Sokolow se permitiu reaparecer nos círculos sociais, e o
resultado previsível foi que logo se viu nas mãos de uma mulher de quarenta
anos que achou que podia transformá-lo num marido satisfatório. De fato, ele
não era nem um pouco avesso ao casamento, mas por este cometeu um erro
terrível: decidiu esconder de sua esposa nosso relacionamento especial. Não era
uma decisão extraordinária naquele tempo, e eu não tinha muita experiência nessas
questões para reconhecer que fora um erro.
Mudei-me de novo para o
belvedere, logo que foi reformado de modo a comportar os hábitos civilizados
que eu adquirira. Desde o início, todavia, a sra. Sokolow me achou um estranho
e assustador bicho de estimação e começou uma campanha pela minha rápida venda
ou transferência. Por sorte, meu benfeitor estava acostumado a fazer as coisas
a seu modo, e deixou claro que não haveria súplica ou coerção que mudasse a
situação por ele criada para mim.
Poucos meses após o casamento,
ele foi a minha jaula me contar que sua esposa, tal qual a Sara de Abraão, em
breve o presentearia com uma criança, fruto de sua maturidade.
— Não previa nada semelhante
quando o chamei de Ismael — disse ele. — Mas descanse, que não permitirei que
ela o expulse de minha casa, como Sara expulsou seu homônimo da casa de Abraão.
Contudo, divertia-o dizer que, se
nascesse um menino, seu nome seria Isaac. Mas acabou sendo uma menina e eles a
chamaram de Raquel.
5
Nesse ponto, Ismael fechou os
olhos e fez uma pausa tão longa que comecei a imaginar se não teria dormido.
Mas enfim continuou.
— Sabiamente ou não, meu
benfeitor decidiu que eu seria o mentor da menina, e eu (sabiamente ou não)
fiquei encantado com a chance de agradá-lo dessa forma. Nos braços de seu pai,
Raquel passava quase tanto tempo comigo quanto com a mãe — o que, naturalmente,
não ajudou muito a melhorar meu conceito perante essa pessoa. Por ser capaz de
me comunicar com a menina numa linguagem mais direta que a fala, conseguia acalmá-la
e diverti-la quando os outros falhavam nisso, e um vínculo foi crescendo entre
nós, comparável ao que existe entre gêmeos idênticos — exceto por eu ser seu irmão,
bicho de estimação, professor e babá, tudo ao mesmo tempo.
A sra. Sokolow mal esperava pelo
dia em que Raquel
começasse a ir à escola, pois seus novos interesses a afastariam de mim. Quando
isso não ocorreu, ela renovou sua campanha pela minha remoção, temendo que
minha presença interrompesse o crescimento social da menina. Seu crescimento social
permaneceu ininterrupto, todavia, embora tenha pulado nada menos que três
séries no ginásio e um grau no colegial; obteve seu titulo de mestre em biologia
antes de completar vinte anos. Mas, depois de tantos anos sendo frustrada numa
questão que dizia respeito à administração de sua própria casa, a sra. Sokolow
não precisou mais de nenhum motivo determinado para me desejar longe dali.
“Depois da morte do meu
benfeitor, em 1985, a
própria Raquel se tornou minha protetora. Permanecer no belvedere estava fora
de questão. Usando fundos deixados para esse propósito no testamento do pai,
Raquel transferiu-me para um retiro que fora preparado com antecedência”.
Mais uma vez Ismael caiu em
silêncio por vários minutos. Então continuou.
— Nos anos que se seguiram, nada
saiu conforme os planos ou as esperanças. Vi que não estava contente em me
“retirar”; tendo passado a vida em retiro, eu desejava de algum modo avançar
para o centro mesmo da cultura de minha nova protetora, e passei a esgotar sua
paciência tentando um acordo fraternal depois do outro. Ao mesmo tempo, a sra.
Sokolow não se contentava em deixar as coisas como estavam e convenceu um
tribunal a cortar pela metade os fundos que haviam sido reservados para meu
sustento vitalício.
“Somente em 1989 as coisas se
esclareceram. Naquele ano, eu finalmente compreendi que minha vocação não
realizada era ensinar — e finalmente concebi um sistema que me permitiria
existir em circunstâncias toleráveis nesta cidade”.
Fez um gesto com a cabeça
indicando que era o fim de sua história — ou era até onde estava disposto a
contar.
6
Há momentos em que ter demais a
dizer é tão emudecedor como ter de menos. Não me ocorria como responder de modo
adequado ou polido a tal narrativa. Afinal fiz uma pergunta que parecia não ser
mais nem menos vazia do que as outras dezenas que me ocorreram.
— E tem tido muitos alunos?
— Tive quatro, e fracassei com os
quatro.
— Por que fracassou?
Ele fechou os olhos e pensou um
pouco.
— Fracassei porque subestimei a
dificuldade do que tentava ensinar e porque não entendia a mente dos alunos o
suficiente.
— Entendo — disse eu. — E o que
você ensina?
Ismael selecionou um ramo novo da
pilha à sua direita, examinou-o brevemente e começou a mordiscá-lo, olhando-me
com languidez. Enfim respondeu:
— Baseando-se em minha história,
que assunto diria que estou mais preparado para ensinar? Olhei-o sem entender e
respondi que não sabia.
— Claro que sabe. Meu assunto é cativeiro.
— Cativeiro?
— Correto.
Fiquei quieto por um minuto,
depois disse:
— Estou tentando imaginar o que
isso tem a ver com salvar o mundo. Ismael pensou um pouco.
— Dentre as pessoas de sua
cultura, quais desejam destruir o mundo?
— Quais desejam destruir o mundo? Até onde eu saiba, ninguém especificamente deseja destruir o mundo.
— E no entanto o destroem, todos
vocês. Cada um contribui diariamente para a destruição do mundo.
— Sim, é verdade.
— Por que não param?
Encolhi os ombros.
— Francamente, não sabemos como.
— São cativos de um sistema
civilizacional que mais ou menos os compele a prosseguir destruindo o mundo
para continuarem vivendo.
— Sim, é o que parece.
— Portanto são cativos e tornaram
o próprio mundo um cativeiro. É o que está em jogo, não é? O cativeiro de vocês
e o cativeiro do mundo.
— Sim, é verdade. Mas nunca
pensei dessa maneira.
— Você mesmo é um cativo a seu
modo, não é?
— Como assim?
Ismael sorriu, revelando uma
grande massa de dentes brancos como o mármore. Até então eu não sabia que era
capaz de sorrir.
— Tenho a impressão de ser um cativo, mas não sei explicar por que tenho tal impressão
— disse eu.
— Anos atrás (você devia ser
criança na época, talvez não se lembre), muitos jovens deste país tiveram a
mesma impressão. Fizeram um esforço ingênuo e desorganizado de escapar do
cativeiro, mas acabaram fracassando, porque não foram capazes de encontrar as
grades da jaula. Se você não descobre o que o está prendendo, a vontade de sair
logo se torna confusa e ineficaz.
— Sim, é essa a sensação que me
causou — disse eu, e Ismael assentiu. —Mas, outra vez, como isso está relacionado
com salvar o mundo?
— O mundo não sobreviverá por muito tempo no cativeiro da
humanidade. Isso precisa de explicação?
— Não. Pelo menos, não para mim.
— Acho que existem muitos entre
vocês que gostariam de libertar o mundo do cativeiro.
— Concordo. O que os impede de
fazê-lo?
— Não sei.
— Eis o que os impede: são
incapazes de achar as grades da jaula.
— Sim, entendo — disse eu, — E o
que faremos agora?
Ismael sorriu outra vez. — Já que
lhe contei uma história que explica como vim parar aqui, talvez você possa
fazer o mesmo.
— O que quer dizer?
— Quero dizer que talvez você
possa me contar uma história que explique como você veio
parar aqui.
— Ah — disse eu. — Dê-me um
momento.
— Quantos quiser — ele replicou
gravemente.
7
— Uma vez, quando estava na faculdade
— disse eu finalmente —escrevi um trabalho para um curso de filosofia. Não
lembro bem qual era o tema, mas estava relacionado com epistemologia. A idéia
do trabalho, grosso modo, era a seguinte: os nazistas não perderam a guerra.
Eles a ganharam e se expandiram. Tomaram conta do mundo e eliminaram todos os
judeus, os ciganos, os negros e os índios orientais e americanos. Depois dessa
etapa, eles acabaram com os russos, os poloneses, os boêmios, os morávios, os
búlgaros, os sérvios e os croatas — todos os eslavos. Depois passaram para os polinésios,
coreanos, chineses e japoneses — todos os povos da Ásia. Isso levou muito,
muito tempo, mas, quando terminaram, todos no mundo eram cem por cento arianos
e todos eram muito, muito felizes.
“Naturalmente, os livros usados
nas escolas não mais mencionavam nenhuma raça exceto a ariana, nenhuma língua
exceto a alemã, nenhuma religião exceto o hitlerismo, nenhum sistema político
exceto o nacionalsocialismo. Não havia necessidade. Após algumas gerações
assim, ninguém poderia ter escrito nada de diferente nos livros mesmo que
quisesse, porque ninguém mais sabia algo
diferente”.
“Mas um dia dois jovens
estudantes conversavam na Universidade de Nova Heidelberg, em Tóquio. Ambos eram
bonitos no modo habitual dos arianos, mas um deles parecia vagamente preocupado
e infeliz. Era o Kurt. Seu amigo perguntou:
“— O que há, Kurt? Por que está
sempre com a cara fechada?
“Kurt respondeu:
“— Vou lhe dizer, Hans. Algo me
preocupa profundamente.
O amigo perguntou o quê.
“— É o seguinte — respondeu Kurt.
— Não consigo me livrar dessa sensação maluca de que estão contando alguma
mentira para nós.
“E assim terminou o trabalho”.
Ismael assentiu pensativamente.
— E o que o seu professor achou?
— Ele quis saber se eu tinha a
mesma sensação maluca de Kurt. Quando disse que tinha, ele quis saber que
mentira eu achava que estavam contando para nós. Eu disse: “Como posso saber?
Minha situação não é melhor que a de Kurt”. É claro, ele não achou que eu
falasse sério. Pensou que fosse apenas um exercício de epistemologia.
— E ainda imagina que estão lhe
contando uma mentira?
— Sim, mas não com tanta
insistência.
— Não? E por quê?
— Porque descobri que, na
prática, não faz diferença nenhuma. Se contam uma mentira para nós ou não,
ainda temos de acordar e ir para o trabalho e pagar as contas e todo o resto. A
não ser, é claro, que todos
comecem a desconfiar de que lhes
contaram uma mentira e todos
descubram que mentira é essa.
— Como assim?
— Se só você descobrisse qual é a
mentira, então provavelmente teria razão: não faria grande diferença. Mas, se todos descobrissem
qual é a mentira, podemos presumir que faria uma grande diferença.
— É verdade.
— Então é essa a esperança que
devemos ter.
Já ia lhe perguntar o que queria
dizer com aquilo, mas ele levantou sua coriácea mão negra e disse-me: “Amanhã”.
8
Naquela noite, saí para um
passeio. Andar só por andar é algo que raramente faço. Mas senti uma ansiedade
inexplicável dentro do meu apartamento. Precisava falar com alguém,
tranqüilizar-me. Ou talvez precisasse confessar meu pecado: mais uma vez estava
tendo pensamentos impuros sobre a salvação do mundo. Ou não era nenhum desses
motivos — tinha medo de estar sonhando. De fato, considerando os acontecimentos
do dia, era plausível que eu estivesse sonhando.
Às vezes vôo alto em meus sonhos
e digo a mim mesmo: “Finalmente está acontecendo de verdade, não
é só um sonho”.
Seja como for, eu precisava falar
com alguém e estava sozinho. É minha condição habitual por opção — ou pelo
menos é o que digo a mim mesmo. Meras camaradagens me deixam insatisfeito, e
pouca gente está disposta a aceitar o peso e o risco da amizade como a concebo.
As pessoas me acham um misantropo
mal-humorado e respondo que devem ter razão. Discussões de qualquer tipo, sobre
qualquer assunto, sempre me pareceram uma perda de tempo.
Na manhã seguinte, acordei e
pensei: “No entanto, pode
ter sido um sonho. Pode-se dormir num
sonho e ter sonhos dentro de um sonho”. Enquanto mecanicamente preparava o café
da manhã, comia e lavava a louça, meu coração batia furiosamente. Parecia
dizer: “Como pode fingir que não está apavorado?”
O tempo passava. Fui de carro ao
centro. O prédio continuava lá. A sala no fim do corredor do térreo continuava
lá, destrancada.
Quando abri a porta, o odor forte
e animal de Ismael atingiu-me em
cheio. Com as pernas bambas, andei até a cadeira e me sentei.
Ele me examinou gravemente por
trás do vidro escuro, como que imaginando se eu era forte o bastante para
suportar conversas sérias. Quando se decidiu, começou sem preâmbulo algum, e
depois descobri que esse era seu estilo habitual.
CAPÍTULO DOIS
1
— Curiosamente — contou Ismael —
, foi meu benfeitor quem despertou meu interesse pelo assunto do cativeiro, e
não minha própria condição. Como posso ter mencionado na minha narrativa de
ontem, ele era obcecado pelo que estava acontecendo
na Alemanha nazista.
— Sim, foi o que presumi.
— Pela história de Kurt e Hans
que me contou ontem, suponho que seja um estudioso da vida e dos costumes do
povo alemão sob o regime de Adolf Hitler.
— Estudioso? Não, não diria
tanto. Li alguns livros conhecidos: as memórias de Speer, Ascensão e queda do III Reich e outros semelhantes. Além de alguns estudos sobre
Hitler.
— Nesse caso, deve entender o que
o sr. Sokolow tentou me mostrar: que não só os judeus eram cativos de Hitler.
Toda a nação germânica era cativa, incluindo seus entusiásticos adeptos. Alguns
detestavam o que ele fazia, outros apenas iam levando como podiam e outros
positivamente se beneficiavam com o regime. Mas eram todos cativos.
— Acho que entendo o que quer
dizer.
— O que os mantinha cativos?
— Bem... o terror, suponho.
Ismael balançou a cabeça.
— Deve ter visto filmes dos
comícios de antes da guerra, com centenas de milhares de cativos cantando e
bradando em uníssono.
Não foi o terror que os levou àquelas festas de unidade e
poder.
— É verdade. Então eu diria que
foi o carisma de Hitler.
— Ele certamente tinha carisma.
Mas isso só atrai a atenção das pessoas. Depois de conquistar a atenção delas,
é preciso ter algo a dizer. E o que Hitler tinha a dizer ao povo alemão?
Refleti sobre a pergunta por
alguns momentos sem muita convicção.
— Além da questão dos judeus, não
creio que possa responderá pergunta.
— Hitler tinha uma história a
lhes contar.
— Uma história?
— Uma história segundo a qual a
raça ariana (e o povo da Alemanha em particular) fora subtraída de seu lugar de
direito no mundo, aprisionada, humilhada, violentada e jogada na lama sob as
esporas das raças mestiças, dos comunistas e dos judeus. Uma história segundo a
qual, sob a liderança de Adolf Hitler, a raça ariana romperia suas correntes,
vingando-se de seus opressores, purificando a humanidade de suas desonras e
assumindo seu lugar de direito como a mestra de todas as raças.
— De fato.
Hoje pode lhe parecer inacreditável
que um povo fosse cativado por tal tolice, mas, após quase duas décadas de
degradação e sofrimento deixados pela Primeira Guerra Mundial, a história
exerceu um apelo quase irresistível sobre o povo da Alemanha, e foi reforçada
não apenas pelos meios corriqueiros da propaganda, mas por um intenso programa
de educação dos jovens e de reeducação dos velhos.
— De fato.
— Como eu disse, havia muitos
alemães que percebiam que a história era mitologia barata. Mas foram cativados
por ela simplesmente porque a ampla maioria que os cercava a achava maravilhosa
e estava disposta a morrer para torná-la realidade. Entende o que quero dizer?
— Acho que sim. Mesmo que não
fossem pessoalmente cativados pela história ficavam cativos do mesmo jeito,
porque as pessoas ao redor deles os tornavam cativos.
Eram como animais sendo arrastados no meio do estouro de uma boiada.
— Correto. Mesmo que pensassem
que tudo aquilo era loucura, precisavam desempenhar o papel, precisavam ocupar
seu lugar na história. O único modo de evitar isso era escapar da Alemanha
totalmente.
— De fato.
— Entende por que estou lhe
dizendo isso?
— Acho que sim, mas não estou
certo.
— Estou lhe dizendo isso porque
as pessoas de sua cultura estão em situação muito semelhante. Como as pessoas
sob a Alemanha nazista, estão sob o poder de uma história.
Fiquei em silêncio por algum
tempo.
— Não conheço essa história —
disse-lhe afinal.
— Quer dizer que nunca a ouviu?
— Isso mesmo.
Ismael assentiu com um gesto de
cabeça.
— Isso porque não há necessidade de ouvi-la. Não há necessidade de nomeá-la ou
discuti-la. Todos vocês a sabem de cor quando chegam aos seis ou sete anos.
Negros e brancos, homens e mulheres, ricos e pobres, cristãos e judeus, americanos
e russos, noruegueses e chineses, todos vocês a ouvem. E a ouvem incessantemente,
porque todo canal de propaganda, todo canal de educação a despeja
incessantemente. E, por ouvi-la incessantemente, não a escutam. Não há necessidade de ouvi-la. Está sempre presente, murmurando ao fundo,
de modo que não há necessidade de prestar-lhe atenção. Na verdade, descobre-se —
ao menos no início — que é difícil prestar-lhe
atenção. E como o rumor de um motor distante que nunca pára; torna-se um som
que já não é mais ouvido.
— Isso é muito interessante —
comentei. — Mas também é um pouco difícil de acreditar.
— Acreditar não é um requisito.
Depois que souber qual é essa história irá ouvi-la por toda parte em sua
cultura e ficará surpreso por as pessoas que o cercam não a ouvirem também, e
sim apenas a absorverem.
2
— Ontem você me disse que tem a impressão de ser um cativo. E isso porque sofre uma enorme pressão para
ocupar um lugar, qualquer que seja, na história que sua cultura está encenando
no mundo. Essa pressão é exercida de todas as maneiras, em todos os níveis, mas
basicamente desta maneira: quem se recusar a ocupar um lugar na história, não
será alimentado.
— Sim, é verdade.
— Um alemão que se recusasse a
ocupar um lugar na história de Hitler tinha uma opção: podia deixar a Alemanha.
Você não tem essa opção. Aonde quer que vá no mundo, encontrará a mesma
história sendo encenada e, se não ocupar um lugar nela, não será alimentado.
— É verdade.
— A Mãe Cultura ensina que é
assim que deve ser. Com exceção de poucos milhares de selvagens espalhados aqui
e ali, todos os povos da Terra agora encenam essa história. É a história que o
homem nasceu para encenar, e afastar-se dela é renunciar à própria raça humana,
é se aventurar no nada. Seu lugar é aqui, participando dessa história,
fazendo parte da engrenagem e, como recompensa, sendo alimentado. Não há “outra
coisa”. Sair dessa história é sair dos limites do mundo. Não há saída, a não
ser a morte.
— Sim, é o que parece.
Ismael fez uma pausa para pensar.
— Tudo isso é apenas um prefácio
ao nosso trabalho. Quis que o ouvisse para que tivesse ao menos uma vaga idéia
do que o espera aqui. Uma vez que tenha aprendido a ouvir a voz da Mãe Cultura
murmurando ao fundo, contando sua história vezes sem fim às pessoas de sua
cultura, nunca deixará de estar consciente dela. Aonde quer que vá, até o final
da vida sentirá a tentação de dizer aos que o rodeiam: “Como podem ficar
ouvindo isso e não perceber do que se trata?” E, se fizer isso, vão olhá-lo com
estranheza e imaginar de que raio está falando. Em outras palavras, se fizer
essa jornada educacional comigo, ficará alienado das pessoas que o cercam:
amigos, familiares, antigas relações, etc.
— Isso eu posso suportar — disse
eu, e deixei por isso mesmo.
3
— Minha maior e mais inatingível
fantasia é viajar pelo mundo como você faz, livremente e sem obstáculos. Sair
para a rua, estender a mão para um táxi que me leve ao aeroporto, tomar um
avião para Nova York, Londres ou Florença. Dedico boa parte dessa fantasia a
imaginar os preparativos para a viagem, a refletir sobre o que deveria incluir
na bagagem e o que poderia deixar de fora (Entenda que, naturalmente, eu
viajaria disfarçado de humano). Levar coisas demais e arrastá-las de um lugar
para outro seria cansativo; por outro lado, levar de menos implicaria ter de interromper
a viagem o tempo todo para apanhar coisas pelo caminho, e isso seria igualmente
cansativo.
— É verdade — disse eu, só para
ser cordato.
— É isso que faremos hoje: vamos
preparar a mala para a viagem que faremos juntos. Colocarei dentro da mala
algumas coisas que não quero parar para apanhar mais tarde. Essas coisas pouco
ou nada significarão para você agora. Apenas as mostrarei rapidamente e as
guardarei na mala, para que as reconheça quando eu as retirar mais tarde.
— Está bem.
— Em primeiro lugar, o
vocabulário. Vamos escolher alguns nomes, para que não precisemos mais falar
das “pessoas de sua cultura” e das “pessoas de outras culturas”. Usei vários
nomes com vários alunos, mas vou experimentar um novo par com você. Deve estar
habituado à expressão “é pegar ou largar”. Usadas nesse sentido, as palavras pegadores e largadores têm alguma conotação forte para você?
— Não sei se entendi.
— Quero dizer que, se chamar um
grupo de Pegadores e o outro de Largadores, vai
parecer que estou sugerindo que há mocinhos e vilões?
— Não. Parecem-me termos neutros.
— Ótimo. Então, daqui por diante
chamarei as pessoas de sua cultura de Pegadores e as pessoas de todas as outras
culturas de Largadores.
— Hum... tenho uma objeção.
— Fale.
— Não sei como pode agrupar todas
as pessoas do mundo nessas categorias.
— É assim que vocês fazem em sua
cultura, com a diferença de que usam um par de termos fortemente carregados em
vez desses relativamente neutros. Vocês se chamam de civilizados e chamam todo o resto de primitivos. Estão em acordo universal quanto a isso; quero dizer que os
povos de Londres, Paris, Bagdá, Seul, Detroit, Buenos Aires e Toronto sabem
disso. A despeito de tudo o que os separa, estão unidos em ser civilizados e diferentes dos poucos da Idade da Pedra espalhados
pelo mundo todo; consideram e reconhecem que, a despeito de suas diferenças, os
povos da Idade da Pedra estão igualmente unidos em ser primitivos.
— Sim, é isso mesmo.
— Você ficaria mais à vontade se
usássemos os termos civilizados
e primitivos.
— Acho que sim, mas só estou mais
acostumado a eles. Podemos usar Pegadores e Largadores.
4
— Em segundo lugar, o mapa. Está
comigo, você não precisa memorizar a rota. Em outras palavras, não se preocupe
se, no final de um dia desses, você de repente perceber que não se lembra de
uma palavra que eu disse. Não importa, pois é a viagem em si que irá
transformá-lo. Entende o que estou dizendo?
— Não estou certo.
Ismael pensou por um momento.
— Vou lhe dar uma idéia geral de
para onde estamos indo, e então entenderá.
— Está bem.
— A Mãe Cultura, cuja voz fala em
seus ouvidos desde o dia em que nasceu, deu-lhe uma explicação de como as coisas vieram a ser como são. Você a conhece bem; todos em sua cultura a conhecem
bem. Mas essa explicação não lhe foi dada toda de uma vez. Ninguém nunca chegou
para você e disse: “Eis como as coisas vieram a ser como são, desde dez ou
quinze bilhões de anos atrás até o presente”. Em vez disso, você reuniu essa
explicação como se fosse um mosaico: a partir de um milhão de informações
apresentadas de várias maneiras por outros que compartilham dessa explicação.
Montou-a a partir da conversa à mesa com seus pais, de desenhos a que assistiu
na televisão, de lições na escola dominical, de seus livros escolares e de seus
professores, de telejornais, de filmes, romances, sermões, peças, jornais e
todo o resto. Está me acompanhando?
— Acho que sim.
— Essa explicação de como as coisas vieram a ser como são é ubíqua em sua cultura. Todos a conhecem e todos a
aceitam sem questionar.
— Certo.
— Ao longo dessa nossa viagem,
reexaminaremos peças centrais desse mosaico. Vamos retirá-las e encaixá-las
noutro mosaico completamente diferente, numa explicação completamente diferente
de como as coisas vieram a ser
como são.
— Certo.
— E, quando terminarmos, terá uma
compreensão totalmente nova do mundo e de tudo o que aconteceu aqui. E não fará
a menor diferença que se lembre de como tal compreensão foi montada. A viagem
em si irá transformá-lo, portanto não se preocupe em memorizar a rota que
tomaremos para realizar essa mudança.
— Certo. Agora entendo o que está
dizendo.
5
— Em terceiro lugar, as
definições — disse. — São palavras que terão um sentido especial em nosso
discurso. Primeira definição: história. Uma
história é um roteiro que inter-relaciona o homem, o mundo e os deuses.
— De acordo.
— Segunda definição: encenar. Encenar uma história é viver de modo a torná-la realidade. Em
outras palavras, encenar uma história é esforçar-se para torná-la verdade. Você
reconhece que é isso que o povo alemão fazia sob o domínio de Hitler. Tentavam
tornar o Reich do Milésimo Ano uma realidade. Tentavam tornar a história que
Hitler contava uma realidade.
— Certo.
— Terceira definição: cultura. A cultura de um povo é sua encenação de uma história.
— Sua encenação de uma
história... E disse que uma história é...
— Um roteiro que inter-relaciona
o homem, o mundo e os deuses.
— Muito bem. Então está dizendo
que as pessoas da minha cultura estão encenando sua própria história sobre o
homem, o mundo e os deuses.
— Isso mesmo.
— Mas ainda não sei que história
é essa.
— Vai saber. Não seja impaciente.
No momento, tudo o que precisa saber é que duas histórias fundamentalmente
diferentes têm sido encenadas durante a existência do homem. Uma começou a ser
encenada há cerca de dois ou três milhões de anos pelo povo que concordamos em
chamar de Largadores, e ainda é encenada por eles hoje em dia, com o mesmo
sucesso de sempre. A outra começou a ser encenada há cerca de dez ou doze mil
anos pelo povo que concordamos em chamar de Pegadores, e parece estar prestes a
terminar em catástrofe.
— Ah! — exclamei, sem saber o que
queria dizer com isso.
6
— Se a Mãe Cultura apresentasse
uma descrição da história humana nesses termos, diria algo assim: “Os
Largadores foram o primeiro capítulo da história humana, um capítulo longo e
vazio de eventos. Esse capítulo da história humana terminou há cerca de dez mil
anos, com o surgimento da agricultura no Oriente Médio. Foi o evento que marcou
o início do segundo capítulo, o dos Pegadores. É verdade que ainda há Largadores
vivendo no mundo, mas são fósseis, anacronismos: povos que vivem no passado,
povos que ainda não entenderam que seu capítulo na história humana acabou”.
— Certo.
— É dessa maneira que sua cultura
percebe a história humana de modo geral.
— Diria que sim.
— Como irá entender, o que afirmo
é bem diferente. Os Largadores não são o primeiro capítulo de uma história em
que os Pegadores são o segundo capítulo.
— Pode repetir?
— Direi de outro modo. Os
Largadores e os Pegadores estão encenando duas histórias separadas, baseadas em
premissas totalmente diferentes e contraditórias. Falaremos disso mais tarde,
portanto não precisa entender neste instante.
— Está bem.
7
Ismael coçou a mandíbula
pensativamente. Estando do outro lado do vidro, eu não ouvia nada, mas
imaginava que o ruído fosse como o de uma pá sendo arrastada pelo cascalho.
— Acho que a nossa mala está
arrumada. Como já disse, não espero que se lembre de tudo o que guardei dentro
dela hoje. Quando for embora, provavelmente se tornará uma bagunça em sua
cabeça.
— Acredito — disse eu com
convicção.
— Mas tudo bem. Se amanhã eu
tirar da mala algum item que coloquei nela hoje, irá reconhecê-lo
instantaneamente, e é o que importa.
— Certo, fico contente em saber.
— A sessão de hoje será curta. A
viagem em si começa amanhã. Enquanto isso, pode passar o resto do dia tentando
descobrir a história que as pessoas de sua cultura têm encenado no mundo nos
últimos dez mil anos. Lembra-se de que ela trata?
— De quê?
— Do sentido do mundo, das
intenções divinas no mundo e do destino humano.
— Bem, posso lhe contar histórias sobre essas coisas, mas não conheço uma só história.
— É a única história que todos em
sua cultura conhecem e aceitam.
— Acho que isso não ajuda muito.
— Talvez ajude se eu lhe disser
que é uma história explicativa, do tipo “Como o elefante ganhou sua tromba” ou “Como
o leopardo ganhou suas pintas”.
— Está bem.
— E o que imagina que a história
de vocês explica?
— Por Deus, não faço a menor
idéia.
— Já deveria saber, pelo que lhe
disse. Explica como as coisas vieram a ser como
são. Desde o início até hoje.
— Entendo — disse eu, e olhei
pela janela por alguns instantes. — Certamente não tenho consciência de
conhecer uma história assim. Como eu disse, histórias eu conheço, mas nada que se pareça com urna única história.
Ismael refletiu um pouco.
— Uma aluna, dentre os que
mencionei ontem, sentiu-se na obrigação de me explicar o que procurava.
Perguntou-me: “Por que ninguém se alarma? Ouço as pessoas falarem sobre o fim
do mundo na lavanderia, e parecem tão alarmadas como se estivessem comparando
marcas de detergentes. Falam da destruição da camada de ozônio e da destruição
total da vida. Falam da devastação das florestas tropicais, da poluição mortal
que durará milhares e milhares de anos, da extinção de dezenas de espécies
todos os dias; do fim da própria noção de espécie. E parecem completamente
calmas”.
— Eu lhe disse: “É isso que
deseja saber, então: por que as pessoas não se alarmam com a destruição do
mundo?” Ela pensou um pouco e respondeu: “Não, eu sei por que não se alarmam.
Não se alarmam porque acreditam no que lhes contaram”.
— O quê? — perguntei.
— O que contaram às pessoas que
as impede de se alarmarem, que as mantém relativamente calmas enquanto assistem
aos danos catastróficos que estão infligindo ao planeta?
— Não sei.
— Contaram-lhes uma história
explicativa. Receberam uma explicação de como as coisas vieram a ser como são e isso silenciou seus temores. Essa explicação abrange
tudo, inclusive a deterioração da camada de ozônio, a poluição dos oceanos, a
destruição das florestas tropicais e até a extinção humana. E isso as satisfaz.
Ou talvez seja mais correto dizer que as apazigua. Participam da engrenagem durante
o dia, narcotizam-se com drogas ou com televisão à noite e tentam não pensar
com muita seriedade no assunto que estão deixando para seus filhos enfrentarem.
— Certo.
— Você também recebeu a
explicação de como as coisas vieram a ser
como são, assim como todo mundo, mas
parece que não o satisfaz. Ouviu-a desde a infância, mas nunca conseguiu
engoli-la. Tem a sensação de que deixaram algo de fora, de que algo foi
encoberto. Tem a sensação de que lhe contaram uma mentira e, se possível,
gostaria de saber qual é. E é por isso que está nesta sala.
— Deixe-me pensar por um momento.
Está dizendo que essa história explicativa contém as mentiras de que falei no
meu trabalho sobre Kurt e Hans?
— É isso mesmo. Exatamente.
— Estou confuso. Não sei de
história nenhuma. Não sei de uma única história.
— É uma história única,
perfeitamente unificada. Basta pensar mitologicamente.
— Como assim?
— Estou falando da mitologia de
sua cultura, é claro. Pensei que fosse óbvio.
— Não para mim.
— Qualquer história que explique
o sentido do mundo, as intenções dos deuses e o destino do homem só pode ser
mitologia.
— Talvez, mas não conheço nada
remotamente parecido com isso. Até onde sei, não há em nossa cultura algo que
possa ser chamado de mitologia, a não ser que esteja falando de mitologia
grega, nórdica ou algo assim.
— Estou falando de mitologia viva.
Não está registrada em nenhum livro, e sim na mente das pessoas de sua cultura.
Está sendo encenada em todas as partes do mundo neste exato instante.
— Repito: até onde eu saiba, não
há nada parecido em nossa cultura.
Ismael franziu a testa escura e
me lançou um olhar divertido e exasperado.
— Isso porque acha que mitologia
é um conjunto de fábulas fantásticas. Os gregos não viam sua mitologia assim.
Sei que entende isso. Se chegasse para um homem da Grécia homérica e lhe
perguntasse que fábulas fantásticas ele contava a seus filhos sobre os deuses e
os heróis do passado, ele não saberia do que você estava falando. Responderia o
mesmo que você: “Até onde eu saiba, não há nada parecido em nossa cultura”. Um
nórdico teria dito o mesmo.
— Está bem, mas isso não ajuda muito.
— Certo, vamos reduzir a tarefa a
uma proporção mais modesta. Essa história, como todas as histórias, tem começo,
meio e fim. E cada uma dessas partes é uma história em si. Antes de nos
encontrarmos amanhã, veja se consegue descobrir o começo da história.
— O começo da história?
— Sim. Pense...
antropologicamente.
Dei risada.
— Como assim?
— Se você fosse um antropólogo
interessado na história encenada pelos aborígines Alawa da Austrália, esperaria
ouvir uma história com começo, meio e fim.
— Certo.
— E como esperaria ser o começo
da história?
— Não faço idéia.
— Claro que faz. Está se fazendo
de burro.
Fiquei quieto, imaginando como
parar de me fazer de burro.
— Muito bem — disse eu afinal. —
Acho que esperaria que fosse sobre o mito da criação.
— É claro.
— Mas não vejo como isso pode me
ajudar.
— Então direi com todas as
letras. Irá descobrir o mito da criação de sua própria cultura.
Olhei-o com desânimo.
— Não temos um mito da criação —
disse eu. — Isso é certo.
CAPÍTULO
TRÊS
1
— O que é isto? — perguntei ao
chegar, na manhã seguinte.
Referia-me a um objeto sobre o
braço da minha cadeira.
— O que parece ser?
— Um gravador.
— É exatamente o que é.
— Sim, mas para quê?
— Para gravar para a posteridade
as curiosas lendas populares de uma cultura condenada que você me contará.
Dei risada e me sentei.
— Sinto dizer que ainda não
encontrei nenhuma lenda curiosa para lhe contar.
— Minha sugestão de que
procurasse o mito da criação não rendeu frutos?
— Não temos mito da criação —
repeti. — A não ser que esteja se referindo ao Gênese.
— Não seja ridículo. Se um
professor de oitava série o convidasse a explicar como tudo começou, leria para
a classe o primeiro capitulo do Gênese?
— Claro que não.
Então, que explicação lhes daria?
— Poderia dar-lhes uma explicação,
mas certamente não seria um mito.
— Naturalmente você não a
consideraria um mito. Nenhuma história da criação é um mito para as pessoas que
a contam. É apenas a história.
— De acordo, mas a história de
que falo certamente não é um mito. Partes dela ainda estão sob questão, e
suponho que pesquisas futuras possam fazer algumas revisões, mas certamente não
é um mito.
— Ligue o gravador e comece.
Então, saberemos.
Olhei-o com reprovação.
— Quer realmente que eu...
— Conte a história, isso mesmo.
— Não posso desfiá-la assim.
Preciso de tempo para organizá-la.
— Há tempo de sobra. A fita tem
noventa minutos.
Suspirei, liguei o gravador e
fechei os olhos.
2
— Tudo começou há muito tempo, há
dez ou quinze bilhões de anos — principiei, minutos depois. — Não estou
atualizado sobre qual teoria está dominando, se é a do estado fixo ou a do big-bang, mas em ambos os casos o universo começou há muito tempo.
Nesse ponto, enviei um olhar
interrogativo a Ismael. Ele me retribuiu o olhar e perguntou:
— É isso? É essa a história?
— Não, só estava confirmando. —
Fechei os olhos e recomecei. — Então, acho que há seis ou sete bilhões de anos,
nosso sistema solar se formou...
Tenho uma imagem na cabeça,
tirada de alguma enciclopédia infantil, de bolas de matéria se espalhando, ou
se aglutinando. Eram os planetas que, ao longo de bilhões de anos foram se
resfriando e se solidificando. Deixe-me ver... A vida apareceu no caldo químico
de nossos antigos oceanos há cerca de... Há quantos anos, cinco bilhões?
— Três bilhões e meio ou quatro.
— Certo. As bactérias e os
microorganismos evoluíram até formas superiores, mas complexas, que por sua vez
evoluíram para formas ainda mais complexas. A vida aos poucos se estendeu até a
terra. Não sei... houve o limo nas margens dos oceanos, os anfíbios... Os
anfíbios ocuparam a terra, evoluíram e tornaram-se répteis. Os répteis
evoluíram e tornaram-se mamíferos. Isso há quanto tempo? Um bilhão de anos?
— Apenas há um quarto de bilhão
de anos.
Certo. Muito bem, os mamíferos...
Não sei bem, mas deviam ser criaturinhas em pequenos nichos, sob arbustos, nas
árvores... Dessas criaturas nas árvores vieram os primatas. Depois, não sei,
talvez há dez ou quinze milhões de anos um ramo dos primatas deixou as
árvores... — Parei, sem combustível.
— Isso não é um teste — disse
Ismael. — As linhas gerais bastam. Quero apenas a história como é
ordinariamente conhecida, por motoristas de ônibus, peões da fazenda e
senadores.
— Está bem — disse eu, e voltei a
fechar os olhos. — Uma coisa levou a outra. Surgiu uma espécie após outra e,
finalmente, o homem apareceu. Quando foi isso? Há três milhões de anos?
— É uma estimativa segura.
— Certo.
— É isso? — inquiriu Ismael.
— Em linhas gerais.
— É a historia da criação como é
contada em sua cultura.
— Isso mesmo. Até onde sei.
Ismael fez um gesto afirmativo
com a cabeça e disse-me para desligar o gravador. Depois, recostou-se com um
suspiro que ribombou pelo vidro como um vulcão distante, cruzou as mãos sobre a
barriga e lançou-me um olhar longo e inescrutável.
— E você, uma pessoa inteligente
e moderadamente culta, quer que eu acredite que isso não é um mito?
— Onde está vendo mitologia nessa
história?
— Não estou vendo mitologia nessa
história: ela própria é um mito.
Acho que ri com nervosismo.
— Talvez eu não saiba qual é seu
conceito de mito.
— O mesmo que o seu. Volte a fita
e ouça a história.
Depois de ouvi-la, fingi estar
pensativo por uma questão de aparência. Depois disse:
— Não é um mito. Se fosse um
texto científico para a oitava série, creio que nenhuma escola objetaria. Com a
exceção dos criacionistas.
— Concordo plenamente. Não disse
que a história é ubíqua em sua cultura? As crianças a absorvem por muitos
canais, incluindo textos escolares sobre ciência.
— Está sugerindo que não é uma
explicação factual?
— Está cheia de fatos, é claro,
mas sua imaginação é puramente mítica.
— Não sei do que está falando.
— É óbvio que desligou sua mente.
A cantiga da Mãe Cultura o fez dormir.
Olhei-o com seriedade.
— Está dizendo que a evolução é
um mito?
— Não.
— Está dizendo que o homem não
evoluiu?
— Não.
— Então, o que está dizendo?
Ismael olhou-me com um sorriso,
encolheu os ombros e levantou as sobrancelhas.
Olhei para ele e pensei: Um gorila está se divertindo comigo. Não adiantou.
— Ouça de novo — disse-me ele.
Ouvi até o fim e disse:
— Certo, deve ser a palavra
“apareceu”. Disse que finalmente o homem “apareceu”. É isso?
— Não, não é nada semelhante. Não
estou implicando com uma palavra. Ficou claro pelo contexto que a palavra
“apareceu” é apenas um sinônimo para “evoluiu”.
— Então, que raio está dizendo?
— Vejo que não está mesmo
pensando. Recitou uma história que ouviu milhares de vezes e agora ouve a Mãe
Cultura murmurar ao seu ouvido: “Pronto, meu filho, não há nada em que pensar,
nada com que se preocupar, não fique agitado, não dê ouvidos a esse animal
malvado, não é um mito, nada do que lhe digo é mito, então não há em que
pensar, nada com que se preocupar, apenas ouça minha voz e durma, durma,
durma...”.
Mordi o lábio por algum tempo e
disse:
— Não adiantou.
— Está bem — disse ele. — Vou
contar uma história minha e isso talvez ajude.
Mordiscou por algum tempo um ramo
folhudo, fechou os olhos e começou.
3
Essa história (continuou Ismael)
aconteceu há meio bilhão de anos — uma época inconcebivelmente distante, quando
este planeta teria sido totalmente irreconhecível para você. Nada se mexia
sobre a terra, a não ser o vento e a poeira. Nenhuma folha balançava ao vento,
nenhum grilo saltava, nenhum pássaro planava no céu. Tais seres ainda
esperariam dezenas de milhões de anos para nascer. Até mesmo os mares eram
sinistramente imóveis e silenciosos, pois os vertebrados também esperariam
milhões de anos para nascer.
Mas é claro que havia um
antropólogo de plantão. Que seria do mundo sem os antropólogos? Mas esse antropólogo
estava muito deprimido e desiludido, pois havia percorrido todo o planeta
procurando alguém para entrevistar e as fitas que carregava na mochila
continuavam vazias como o céu. Mas um dia enquanto andava desanimado à beira do
oceano, pensou ter visto uma criatura viva nas águas rasas próximas à margem.
Não era lá grande coisa, apenas uma espécie de bolha, uma água-viva. Mas, como
era a única perspectiva que encontrara em todas as suas viagens, avançou pela
água rasa até onde a criatura balançava ao sabor das ondas.
Trocaram saudações cordiais e
logo já eram bons amigos. O antropólogo explicou como pôde que estudava estilos
de vida e costumes, solicitou tais informações de seu novo amigo e foi
prontamente atendido.
— E agora — concluiu o
antropólogo — gostaria de gravar, em suas próprias palavras, algumas histórias
que contam entre vocês.
— Histórias? — estranhou a bolha.
— Sim, como o mito da criação, se
é que o têm.
— O que é o mito da criação?
— Ah, você sabe — respondeu o
antropólogo. — As lendas fantásticas que contam a seus filhos sobre a origem do
mundo.
Ao ouvir isso, a criatura se
empertigou com indignação — ou pelo menos do modo que uma bolha inchada
consegue fazê-lo — e respondeu que seu povo não tinha lenda fantástica nenhuma.
— Quer dizer que não explicam a
criação?
— Certamente que explicamos a
criação — declarou a bolha. — Mas seguramente não é um mito.
— Não, com certeza não —
concordou o antropólogo, finalmente se lembrando de seu treinamento. — Ficaria
imensamente grato em ouvir essa explicação.
— Muito bem — admitiu a criatura.
— Mas quero que entenda que, como você, somos um povo estritamente racional e
não aceitamos nada que não se baseie em observação, lógica e método científico.
— Claro, claro — tornou a
concordar o antropólogo.
A criatura enfim começou seu
relato.
— O universo surgiu há muitos e
muitos anos, talvez há dez ou quinze bilhões de anos. Nosso sistema solar (esse
astro, este planeta e todos os outros) veio a existir há cerca de dois ou três
bilhões de anos. Durante muito tempo, não houve nenhuma forma de vida aqui. Mas
então, depois de um bilhão de anos, surgiu a vida.
— Perdão — interrompeu o
antropólogo. — Disse que a vida surgiu. Onde isso aconteceu, segundo seu
mito... quero dizer, segundo sua explicação científica?
Aturdida com a pergunta, a
criatura empalideceu.
— Quer dizer, em que local
especifico?
— Não, quero saber se aconteceu
na terra ou no mar.
— Terra? — estranhou a bolha. — O
que é isso?
— Você sabe — disse o
antropólogo, acenando na direção da margem. — A extensão de terra e pedras que
começa ali.
A criatura ficou mais pálida
ainda e retrucou:
— Não faço idéia de que tolice
está falando, A terra e as rochas que estão ali são apenas a borda da imensa
bacia que contém o oceano.
— Sim, entendo o que está dizendo
— disse o antropólogo. — Perfeitamente.
Continue.
— Muito bem. Durante milhões de
séculos, os únicos seres que existiam no mundo eram microorganismos flutuando
ao léu num caldo químico. Mas, aos poucos, formas mais complexas apareceram:
criaturas unicelulares, fungos, algas, pólipos e assim por diante. Mas,
finalmente... — disse a criatura, corando de orgulho ao chegar ao ápice da
narrativa, — Mas, finalmente, a água-viva apareceu.
4
Não emiti nada durante muitos
segundos, a não ser ondas de fúria contida. Depois disse:
— Não é justo.
— Como assim? O que quer dizer?
— Não sei exatamente o que quero
dizer. Deu-me um tipo de lição, mas não sei bem qual foi.
— Não sabe?
— Não.
— O que a água-viva quis dizer
quando proclamou: “Mas, finalmente, a água-viva apareceu”?
— Quis dizer... que tudo
caminhava nessa direção. Era para isso que caminhavam todos os dez ou quinze
bilhões de anos da criação: a água-viva.
— Concordo. E por que a sua explicação
da criação não terminou com o aparecimento da água-viva?
Acho que dei uma risada nervosa.
— Porque havia mais por vir
depois da água-viva.
— Correto. A criação não terminou
com a água-viva. Ainda viriam os vertebrados, os anfíbios, os répteis, os
mamíferos e por fim, evidentemente, o homem.
— Certo.
— Logo, sua explicação da criação
termina assim: “E finalmente o homem apareceu”.
— Sim.
— O que significa...
— Que nada mais havia por vir.
Que a criação chegara ao fim.
— Era para isso tudo que
caminhava.
— Sim.
— É claro. E todos em sua cultura
sabem disso. O auge foi alcançado pelo homem. O homem é o clímax de todo o
drama cósmico da criação.
— Sim.
— Quando o homem finalmente
apareceu, a criação chegou ao fim porque seu objetivo fora alcançado. Nada
restava a criar.
— Parece ser a suposição
implícita.
— Nem sempre é só implícita. As
religiões de sua cultura não têm reservas quanto a isso. O homem é o produto
final da criação. O homem é a criatura para quem todo o resto foi criado: este
mundo, este sistema solar, esta galáxia, o próprio universo.
— É verdade.
— Todos em sua cultura sabem que
o mundo não foi criado para a água-viva, para o salmão, para os iguanas ou para
os gorilas. Foi criado para o homem.
— Isso mesmo.
Ismael me lançou um olhar
sardônico.
— E isso não é mitologia?
— Bom... fatos são fatos.
— Certamente. Fatos são fatos,
mesmo quando na forma de mitologia. Mas e quanto ao resto? Todo o processo
cósmico da criação chegou ao fim há três milhões de anos, bem aqui neste
pequeno planeta, com o aparecimento do homem?
— Não.
— E o processo planetário de
criação chegou ao fim há três milhões de anos com o aparecimento do homem? A
evolução chegou a um final brusco só porque o homem apareceu?
— Não, claro que não.
— Então por que me contou essa
história?
— Acho que lhe contei essa
história porque é contada assim.
— É contada assim entre os
Pegadores. Certamente não é a única que pode ser contada.
— Entendo. Como você a contaria?
Ele acenou com a cabeça para a
janela e para o mundo por trás dela.
— Vê a menor evidência que seja,
em qualquer lugar do universo, de que a criação chegou ao fim com o surgimento
do homem? Vê a menor evidência por aí de que o homem tenha sido o clímax que a
criação se esforçou por alcançar desde o inicio?
— Não. Nem sequer imagino qual
seria o aspecto de tal evidência, — Isso deveria ser óbvio. Se os astrofísicos
chegassem à conclusão de que o processo criativo fundamental do universo
terminou há cinco bilhões de anos, quando nosso sistema solar apareceu, isso ao
menos ofereceria alguma base para essas noções.
— Sim, entendo o que está
dizendo.
— Ou, se os biólogos e
paleontólogos pudessem provar que o surgimento das espécies terminou há três
milhões de anos, isso também seria sugestivo.
— Sim.
Mas sabe que nada disso aconteceu
de fato. Pelo contrário. O universo continuou como antes, o planeta continuou
como antes. O aparecimento do homem não causou mais comoção do que o da
água-viva.
— É verdade.
Ismael fez um gesto em direção ao
gravador.
— Então, o que devemos achar da
história que me contou?
Abri um sorriso contrafeito.
— É um mito. Por incrível que
pareça, é um mito.
5
— Disse-lhe ontem que a história
que as pessoas de sua cultura estão encenando é sobre o sentido do mundo, sobre
intenções divinas e sobre o destino humano.
— Sim.
E, segundo a primeira parte da
história, qual é o sentido do mundo?
Pensei por um momento.
— Não vejo como essa parte
explica o sentido do mundo.
— Lá pela metade de sua história,
o foco é transferido do universo como um todo para este planeta. Por quê?
— Porque este planeta estava
destinado a ser o berço do homem.
— É claro. Segundo sua história,
o nascimento do homem foi um evento central; na verdade, foi o evento central
na história do próprio cosmo. Desde o surgimento do homem, o resto do universo
deixou de ter interesse, deixou de participar no desenrolar da trama. Por isso,
somente a Terra é suficiente, é o berço e o lar do homem, esta é sua
finalidade. Os Pegadores vêem o mundo como um tipo de sistema de conservação
humana, uma máquina criada para produzir e sustentar a vida humana.
— Sim, é verdade.
— Ao contar a história, você
naturalmente deixou de fora qualquer menção aos deuses, para não contaminá-la
com mitologia. Agora que estabelecemos seu caráter mitológico, esqueça essa
preocupação. Supondo que exista uma agência divina por trás da criação, o que
pode me dizer sobre as intenções dos deuses?
— Bem, basicamente o que tinham
em mente ao começarem era o homem — considerei. — Fizeram o universo de modo
que contivesse nossa galáxia. Fizeram nossa galáxia de modo que contivesse
nosso sistema solar. Fizeram nosso sistema solar de modo que contivesse nosso
planeta. E fizeram nosso planeta de modo que nos contivesse. Tudo foi feito de
modo que o homem tivesse um pedaço de terra onde pisar.
— Essa é a noção geral em sua
cultura; ao menos, para aqueles que supõem que o universo seja uma expressão
das intenções divinas.
— Sim.
— Obviamente, se todo o universo
foi criado para que o homem fosse criado, este deve ser uma criatura de enorme
importância para os deuses. Mas essa parte da história não dá nenhuma indicação
das intenções divinas para com ele. Devem ter lhe reservado algum destino
especial, mas que não é revelado nessa primeira parte.
— É verdade.
6
— Toda história baseia-se numa
premissa: é a elaboração de uma premissa. Como escritor, deve saber disso.
— Sim.
— Reconhecerá esta: Os filhos de famílias rivais se apaixonam.
— Sim, é Romeu e Julieta.
— A história encenada no mundo
pelos Pegadores também tem uma premissa, contida na parte da história que me
contou ontem. Veja se descobre qual é.
Fechei os olhos e fingi que me
esforçava, quando na verdade não tinha a menor chance.
— Não estou identificando.
— A história que os Largadores
encenaram no mundo tem uma premissa inteiramente diferente, e seria impossível
que você a descobrisse neste ponto. Mas deveria ser capaz de descobrir a
premissa de sua própria história. É uma noção muito simples, a mais poderosa de
toda a história humana. Não é necessariamente a mais benéfica, mas certamente a
mais poderosa. Toda a sua história, com todas as suas maravilhas e catástrofes,
é uma elaboração dessa premissa.
— Sinceramente, nem imagino onde
quer chegar.
— Pense... Olhe, o mundo não foi
feito para a água-viva, foi?
— Não.
— Foi feito para os sapos,
lagartos ou coelhos?
— Não.
— Claro que não. O mundo foi
feito para o homem.
— Isso mesmo.
— Todos em sua cultura sabem
disso, não é? Mesmo os ateus que juram não haver deuses, sabem que o mundo foi
feito para o homem.
— Diria que sim.
— Muito bem, essa é a premissa de
sua história: O mundo foi feito para o homem.
— Não consigo entender por que
isso é uma premissa.
— As pessoas de sua cultura fizeram disso uma premissa, entenderam como
uma premissa. Disseram: E
se o mundo foi feito para nós?
— Certo, continue.
— Pense nas conseqüências de ter
isso como premissa. Se o mundo foi feito para vocês, então...
— Certo, estou entendendo. Se o
mundo foi feito para nós, então ele pertence a nós, e
podemos fazer com ele o que bem quisermos.
— Exato. É o que tem acontecido
durante os últimos dez mil anos. Vocês têm feito o que bem entendem com o mundo.
E é claro que pretendem continuar fazendo o que bem entendem com ele, já que pertence a vocês.
— Sim — disse eu, e pensei um
pouco. — É realmente impressionante. Quero dizer, ouvimos isso cinqüenta vezes
por dia. As pessoas falam de nosso ambiente, de nossos mares, de nosso
sistema solar. Já ouvi gente
falando até de nossa vida selvagem.
— E ontem mesmo você me garantiu,
com total confiança, que não havia nada em sua cultura que de longe se
parecesse com uma mitologia.
— É verdade — disse eu, mas
Ismael continuou a me olhar com severidade.
— Estava enganado. O que mais
você quer?
— Espanto — disse ele.
Fiz um gesto afirmativo com a
cabeça.
— Estou espantado, sim, mas não
demonstro.
— Queria ter pego você quando
tinha dezessete anos.
— Eu queria o mesmo.
7
— Ontem, disse-lhe que sua
história fornece-lhes uma explicação de como as coisas vieram a ser como são.
— Certo.
— Qual a contribuição da primeira
parte da história para a explicação?
— Quer dizer... qual a sua
contribuição para a explicação de como as coisas vieram a ser como são agora?
— Isso mesmo.
— De imediato, não vejo
contribuição alguma.
— Pense. As coisas teriam vindo a
ser como são se o mundo tivesse sido feito para a água-viva?
— Não, não teriam.
— É óbvio que não. Se o mundo
tivesse sido feito para a água-viva, as coisas seriam totalmente diferentes.
— Isso mesmo. Mas não foi feito
para a água-viva, foi feito para o homem.
— E isso em parte explica como as coisas vieram a ser como são.
— Entendi. É um truque para
culpar os deuses por tudo. Se tivessem feito o mundo para a água-viva, nada
disso teria acontecido.
— Exato — disse Ismael, — Está
começando a pegar a idéia.
8
— Tem noção agora de onde pode
encontrar as outras partes da história: a do meio e a final?
Refleti um pouco.
— Acho que eu assistiria a um
programa de fatos científicos e extraordinários na televisão.
— Por quê?
— Diria que, se eles estivessem
apresentando a história da Criação, a história que contei hoje seria o esboço.
Tudo o que preciso fazer agora é imaginar como apresentariam o resto.
— Então, é sua próxima tarefa,
Amanhã quero ouvir o meio da história.
Sobre o autor
Daniel Quinn nasceu em Omaha, Nebrasca, em
1935. Estudou na Universidade de St. Louis, na Universidade de Viena e na
Universidade Loyola de Chicago. Em 1975, Quinn abandonou uma longa carreira de
editor para tornar-se escritor free
lance.
A primeira versão do livro que veio a ser Ismael — seu livro
premiado — foi
escrita em 1977. Seguiram-se seis outras
versões até o livro encontrar sua forma final, como ficção, em 1990. Quinn
passou a aprofundar as origens e experiências de Ismael numa autobiografia
altamente inovadora, com o título: Providence
— The Story of a Fifty Year Vision Quest.
A respeito de sua nova obra de ficção, Quinn
escreveu: “Durante anos, preocupei-me com a possibilidade de jamais igualar —
muito menos ultrapassar — o que consegui em Ismael. Essa dúvida apagou-se, para mim, com A História de B. Ismael certamente aprovaria esse livro”.
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Questões para debate
(Capítulos 1-3 de Ismael: Um Romance da Condição Humana)
1. Leia,
abaixo, a definição abaixo da palavra “mito”, do cientista político Gilbert Rist:
“...o mito é compartilhado por todos, não é
nunca desafiado, e é um plano de ação pronto, disponível em quaisquer
circunstâncias; por implicação, o mito é também histórico, resultado de uma
criação coletiva a que a sociedade, não conscientemente, dá forma. Finalmente,
o mito como tal não se relativiza: trata-se de um estereótipo não falado, que
determina comportamentos a todo momento, expressando-se a si próprio através de
costumes e hábitos que contribuem para reforçá-lo, podendo ser descoberto apenas
por um observador externo. O mito é um mapa para a ação que dispensa reflexões.
É suficiente que ele seja uma crença compartilhada. Nós agimos como agimos
porque não conseguimos imaginarmos atuando de outra forma. A primeira causa não
tem causa.”
Baseada nesta definição,
você concordaria que a história que usamos para explicar o mundo civilizado é
realmente um mito, conforme afirmado pelo gorila Ismael?
2. Há mais de
30 anos atrás, Celso Furtado já escrevia o sobre o “mito do
desenvolvimento econômico”:
“A literatura
sobre desenvolvimento econômico do último quarto de século nos dá um exemplo
meridiano desse papel diretor dos mitos nas ciências sociais: pelo menos 90% do
que aí encontramos se funda na idéia, que se dá por evidente, segundo a qual
desenvolvimento econômico tal qual vem sendo praticado pelos países que
lideraram a revolução industrial, pode ser universalizado. Mais precisamente:
pretende-se que os padrões de consumo da minoria da humanidade, que atualmente
vive nos países altamente industrializados, são acessíveis ás grandes massas de
população em rápida expansão que formam o chamado Terceiro Mundo. Essa idéia
constitui, seguramente, uma prolongação do mito de progresso, elemento
essencial da ideologia diretora da revolução burguesa, dentro da qual se criou
a atual sociedade industrial”.
“Cabe, portanto, afirmar que a idéia de desenvolvimento econômico é um
simples mito. Graças a ela tem sido possível desviar as atenções da tarefa
básica de identificação das necessidades fundamentais da coletividade e das
possibilidades que abre ao homem o avanço da ciência, para concentrá-las em
objetivos abstratos como são investimentos, as exportações e o crescimento.
(...) [O mito é] seguramente um dos
pilares da doutrina que serve de cobertura à dominação dos povos dos países
periféricos dentro da nova estrutura do sistema capitalista.”
Trace paralelos entre o conceito de “mito cultural” proposto
por Ismael e a idéia do “mito econômico” discutida nesta disciplina e sugerida
por Furtado.
3. No livro,
Ismael afirma que nossa cultura se baseia
numa premissa básica: “O mundo foi feito
para o homem”. Assinale evidências que apontem para a verdade (ou não)
desta afirmação.
4. Reflita
sobre a seguinte frase, atribuída a Albert Einstein: “Não podemos solucionar um problema com a mesma atitude que tínhamos quando o
criamos”. Como criar alternativas ou propor uma
mudança de paradigma em face ao “mito cultural” no qual vivemos?
RIST, G.ilbert.
“’Development’ as Part of the Modern Myth: The Western ‘Socio-Cultural
Dimension’ of ‘Development’”. The European Journal of Development Research,
v. 2, n. 1, junho, pp. 10-21, 1990.
FURTADO, C. O Mito do Desenvolvimento
Econômico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.